Resumo
As redes sociais configuram um novo cenário de projeção do desejo e da construção de identidades, impactando diretamente a vida psíquica dos sujeitos. A partir da teoria psicanalítica, este artigo busca refletir sobre como os desejos, fantasias e sentimentos inconscientes são mobilizados e influenciados pelo uso das redes sociais, especialmente na era da hipervisibilidade e do imediatismo. Com base em Freud, Lacan e autores contemporâneos, discute-se estratégias para lidar com esse contexto sem perder a autonomia subjetiva.
Palavras-chave: Psicanálise. Redes Sociais. Inconsciente. Desejo. Fantasia. Subjetividade.
1. Introdução
Na contemporaneidade, as redes sociais tornaram-se espaços privilegiados para a expressão e a modelagem da subjetividade. Likes, curtidas, filtros e seguidores compõem uma nova linguagem que reorganiza o modo como o sujeito se relaciona com o próprio desejo e com o olhar do outro. Sob a ótica da psicanálise, é possível compreender que esse novo contexto digital intensifica a projeção de fantasias inconscientes, bem como ativa sentimentos recalcados, como inveja, inadequação e idealizações do eu.
2. Desejo e Inconsciente: Fundamentos da Psicanálise
Segundo Freud (1915), o inconsciente é o lugar psíquico onde se alojam desejos recalcados, que não puderam ser aceitos pela consciência. Esses desejos continuam ativos, buscando expressão por vias indiretas, como sonhos, sintomas, atos falhos e repetições. O desejo, na psicanálise, não é racional ou transparente; ele é marcado pela falta e pela impossibilidade de plena satisfação.
Lacan (1964) desenvolve essa noção afirmando que “o desejo é o desejo do Outro”, isto é, o sujeito se constitui na relação com o desejo alheio, especialmente por meio da linguagem e do olhar. Isso se torna extremamente relevante no contexto digital, onde o desejo é constantemente espelhado, comparado e regulado pela imagem do outro.
3. Redes Sociais como Espelho das Fantasias Inconscientes
As redes sociais funcionam, muitas vezes, como um grande espelho narcísico, em que o sujeito projeta uma imagem idealizada de si mesmo. Essa imagem, que busca ser amada e reconhecida, é frequentemente sustentada por fantasias inconscientes de completude, sucesso e perfeição.
Ao mesmo tempo, o contato constante com as imagens idealizadas dos outros pode despertar sentimentos recalcados, como inveja, inadequação e fracasso. Segundo Costa (2018), o ambiente digital favorece a formação de um “super ego digital”, marcado por exigências inatingíveis de performance e estética, que alimentam angústias subjetivas.
4. Sentimentos Ocultos e Ansiedade na Era Digital
A constante comparação com os outros nas redes sociais pode reativar conteúdos inconscientes como baixa autoestima, culpa, vergonha e rivalidade. A busca incessante por validação externa, traduzida em curtidas e comentários, muitas vezes mascara um vazio existencial que o sujeito tenta preencher com a aprovação digital.
Freud (1930), em O mal-estar na civilização, já apontava como a repressão de desejos e a conformidade com as normas sociais geram sofrimento psíquico. No ambiente digital, essa dinâmica se intensifica com a cultura do desempenho e da exposição contínua.
5. Como Lidar com as Redes Sociais sem Ser Dominado por Elas
A psicanálise não propõe uma solução pragmática, mas uma escuta e uma reflexão ética sobre o próprio desejo. Lidar com as redes sociais sem se deixar dominar por elas implica:
-
Reconhecer que o desejo do outro não é um ideal a ser imitado, mas um ponto de escuta sobre o próprio desejo;
-
Evitar a identificação cega com os ideais digitalmente impostos;
-
Exercitar o uso consciente da tecnologia, respeitando os próprios limites psíquicos;
-
Buscar espaços de elaboração subjetiva fora do ambiente virtual — seja pela análise, escrita, arte ou trocas humanas reais.
Como sugere Dunker (2017), é preciso “produzir um novo laço social” que resgate a alteridade e o desejo singular, deslocando o sujeito da lógica do consumo e da comparação.
6. Considerações Finais
As redes sociais são um campo fértil para a projeção de fantasias inconscientes e a ativação de desejos recalcados. A psicanálise nos convida a um posicionamento ético diante da influência dessas plataformas, propondo que cada sujeito possa escutar seu próprio desejo em vez de se submeter à tirania da imagem e da aprovação digital.
Reconhecer o inconsciente, dar espaço ao sofrimento psíquico e buscar simbolizações mais autênticas pode ser um caminho para o uso mais saudável e consciente das redes sociais.
Referências
COSTA, Jurandir Freire. A incerteza do desejo. Rio de Janeiro: Garamond, 2018.
DUNKER, Christian Ingo Lenz. Reinvenção da intimidade: Políticas do sofrimento cotidiano. São Paulo: Ubu Editora, 2017.
FREUD, Sigmund. O inconsciente (1915). In: FREUD, S. Obras completas. Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). In: FREUD, S. Obras completas. Vol. XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.